sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A China anda a tentar ficar em pé nesta crise

Os salários públicos dos funcionários chineses receberam um aumento de 60%.

Há uma dimensão que ninguém ignora: a China sabe que o poder do Partido Comunista está a esboroar-se. O chinês quer liberdade, quer abundância. Quer abundância em liberdade. O que a China podia fazer através de liberalização de parte substancial da economia está feito. O Partido comunista sabe disto. E toca a tentar que os funcionários públicos permaneçam a base de lealdade do Partido quando, ainda este ano, virmos os chineses clamarem por liberdade, alguns pagando com a própria vida.

Os comunistas estão no poder apenas porque a devida ajuda a Chang Kaichek foi negada nos anos subsequentes à Segunda Guerra Mundial. A ONU (aquela organização cujo regulamento é estranhamente semelhante à constituição soviética de Estaline) e o Departamento de Estado Norte-Americano fizeram tudo para que os nacionalistas chineses, quye até já tinham eleições demoicráticas marcadas, nunca pudessem lutar contra o poder. Os nacionalistas ficaram apenas no controlo de Taiwan. Os comunistas da China Continental. Taiwan teve economia de mercado, e a China economia de mercado negro. E isso resultou neste gráfico:

Comparação do PIB per Capita da China com os seus vizinhos.

Taiwan e a China partilhavam a língua e o povo. Tanto a China Continental como Taiwan (a ilha Formosa, nome dado pelos portugueses por excelentes razões) estavam escavacados depois da Segunda Guerra Mundial e da ocupação japonesa. Partindo de lugares semelhantes, percorreram estradas diferentes. E o gráfico anterior mostra como caminhos diferentes acabam em lugares diferentes. Um destes países continuou pobre. O outro enriqueceu. Um dos países realizou finalmente a liberdade e a abundância dos chineses, como sempre mereceram. O outro transformou-se na mais populosa prisão do Mundo, com a paz das campas e as malgas vazias.

Em Portugal aumentaram-se 3% os funcionários públicos (na sua maioria tralha socialista) antes das eleições. Não há cheiro de eleições na China. O estado socialista é consagrado e blindado no artigo 1º e o centralismo democrático no artigo 3º da Constituição da República Popular da China. Creio que os dirigentes do Partido estão a tentar comprar uma classe de 39 milhões de pessoas (mais familiares próximos), cuja influência é mais forte nas zonas rurais, antevendo turbas e motins à face do fim do crescimento real do produto na China.

Há no entanto vislumbres de mudança na China, mesmo dentro do Partido Comunista. A campanha anti-corrupção levou oficiais de vários níveis à barra do tribunal. Xi Jiping mostra esforço para retirar dos centros de decisão a tradicional corrupção (secular e aceite) que tantos danos fez à China. Se esse esforço é sincero ou apenas uma maneira de remover adversários, como faziam Mao e Estaline, é coisa que será vista. Eu tenho uma opinião, baseado no que vejo e leio: Xi Jiping é sincero, e o homem que faz falta à China. E se, como antevejo, entre este ano e o próximo se comecem a falar de eleições multipartidárias na China, para desespero do tio Jerónimo de Sousa, terei razão. Se os líderes das manifestações de Hong Kong desaparecerem para não mais serem vistos, terei de fazer ato de contrição com cílio e surra.

As pistas estão lá todas na imprensa chinesa, tanto em inglês como em mandarim. Se essas pistas provêm de cima, do partido, ou de baixo, do povo, isso é coisa que não consigo descortinar desta distância. O povo chinês, cada vez mais cristão e pró-ocidental, quer liberdade, e isso é patente. Querê-la-á também o presidente Xi? Não sei. Espero que sim. A China merece.