sábado, 20 de abril de 2013

Ao cuidado de Pedro Passos Coelho

Pedro Passos Coelho, gostaria de lhe lembrar que eu votei num liberal. Em si, naquilo que é hoje, não foi de certeza.

Um liberal iria diminuir o papel do Estado na economia, talvez para 15% a 20%, não o deixaria aumentar. Um liberal iria diminuir o número de leis, decretos, portarias e minúcias, e não criar mais confusão no edifício legislativo português. Um liberal iria manter os tipos da ASAE em modo pedagógico, não a avançar logo com o bloco de multas. Um liberal nunca permitiria que algum qualquer industrial tivesse 17.000 páginas de legislação que lhe pertinem para ler, mais ou menos a altura de um homem em folhas empilhadas. Nunca permitiria que um simples café precisasse mais de vinte papéis e autorizações para entrar em funcionamento. Um liberal nunca permitiria que uma exploração de aquacultura pudesse estar anos a fio sob o terror burocrático sem poder iniciar obras.

Um liberal nunca iria permitir que os pais tivessem de gastar trezentos euros por ano em livros escolares por aluno por causa dos sempiternos conluios entre editoras, funcionários do ministério e professores. Um liberal nunca permitiria que 50.000 professores estivessem sem dar aulas, apesar de continuarem a drenar dinheiro de contribuintes que ganham três ou quatro vezes menos do que eles. Um liberal nunca permitiria que nas câmaras municipais os armazéns estivessem cheios de trabalhadores especializados enquanto o trabalho real é adjudicado, a preços acima de mercado, muitas vezes sem concurso público e sempre aos amigos dos presidentes de câmara.

Um liberal não teria permitido que as PPP da energia e das autoestradas continuassem como estão. Se é verdade que é difícil lutar contra as leis blindadas por Sócrates, pelo menos teria dado luta e feito esses manigantes suar as estopinhas e chorar de raiva e de medo. Um liberal a sério não permitiria que o mercado liberalizado de energia e de comunicações tivesse tantas barreiras burocráticas e administrativas à entrada que na prática apenas uns poucos pudessem cartelizar os preços e cobrar quanto quisessem.

Um liberal teria desregulado a economia, baixado o número de papéis e de autorizações, teria acabado com leis feitas à medida de empresas incumbentes para eliminar concorrência. Um liberal teria despedido na função pública, para que o Estado fosse menor e mais ágil, e pesasse menos nos ombros dos infelizes e forçados contribuintes que o carregam. Um liberal não teria mentido ou dourado pílulas sobre o estado da Segurança Social, passando para os nossos descendentes, os meus filhos e os seus, encargos dobrados que poderiam ter sido resolvidos nesta geração e que deveriam ter sido acautelados na anterior.

Pedro Passos Coelho, o senhor não é liberal nenhum. Peço por favor que se assuma como é publicamente, um socialista, apenas espartilhado por o crédito se ter acabado. O seu governo é na essência igual a um hipotético governo de António José Seguro, apenas menos mau nos efeitos porque o outro é um completo Tó Zero. Rogo-lhe por isso que diga de uma vez por todas o que o faz achar ser liberal. Eu, que o sou, em si não acho nada.