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O Rui Carmo não tem razão, e não me apraz dizê-lo.

O Rui Carmo, d'O Insurgente escreveu uma artigo de título Rússia em modo vintage, onde cita um artigo mal escrito da RT.com, Central Russian region bans crisis… from public speech. Neste último artigo diz-se, com uma tradução sumamente infeliz, que o governador da região de Kaluga Oblast proibiu o uso da palavra crise no discurso público.

O problema é que o governador nem pode impedir os cidadãos nem a imprensa de usar as palavras que ele quiser. O que ele proibiu é o uso dessa palavra nos discursos estatais, dos documentos emitidos pela Região de Kaluga Oblast. Qualquer pessoa que conheça a Rússia sabe que o tipo está na calha para se tornar um personagem de anedotas e outros ditos jocosas, como os chuchkas, os alentejanos lá do sítio, os polacos, os franceses, o Rabinovitch (um judeu avarento e traidor) ou o Michka (um miúdo traquinas e inocente). Uma espécie de Bocage em cirílico, é o que ele vai, a meu ver, acabar por ser.

O Rui Carmo, que já produziu diversos artigos a criticar o putinismo, bebe das fontes erradas. A Rússia não está a voltar aos tempos do KGB. Pelo contrário, pouco a pouco abre a sua liberdade. É isto que o Rui Carmo não consegue ver, com as notícias em segunda mão das agências ocidentais. Essas sim, bem compinchadas com a escarralhada vigente, que adorou a União Soviética, mas detesta a Rússia — e apenas espera que a Rússia se revolucione para o passado.

O Rui Carmo clama que é uma anedota dizer que na Rússia existe imprensa livre. Pois pode ficar descansado, pois a há. A Nezavisimaia Gazeta é contra-Putin quanto pode. O Kommersant, o jornal económico de referência na Rússia, é do mesmo grupo. Jornais em inglês abundam: Daily City Times é editado em São Petersburgo e não é de forma alguma alinhado com Putin.

Deixei-lhe este último comentário. Ponho-o aqui porque sumariza o que penso da Rússia de hoje.

Já antes lhe tinha dado sobejos exemplos de jornais russos em russo escritos no território russo e que são tudo menos simpático para o Putin. Mas até lhe dou dois com edição em inglês: Kommersant e Petersburg Times. Se os ler, (e pode ir buscar os URL ao Google), verá que, bom, são muito pouco simpáticos para o Putin.

Lembre-se de que a aceitação do Putin pela população (e isso graças ao Ocidente e às estúpidas sanções) é de 85% nestes dias. Há muitos jornalistas enfatuados por ele e até Gorbachev se bandeou pelo Putin — o que deixou muita gente por cá espantada. Contudo, continua a haver oposição, e continuam a publicar jornais e rádio e TV na Rússia, dentro do território russo.

Nunca me ouviu clamar que a Rússia é perfeita. Quando muito estará um pouco mais livre que Portugal foi durante o Sócrates e das suas tentativas de manipular a imprensa. Ora, a Rússia está a ir no sentido da liberdade, e só não nota quem está em Portugal. Rui, pode dizer o mesmo de Portugal?

O José Milhazes farta-se de escrever de dentro da Rússia contra Putin. Já recebeu ele alguma visita do FSB? Já foi despedido da sua cátedra ou impedido de escrever? Lembra-se do que aconteceu ao José Manuel Fernandes em Portugal?

Poderia uma imprensa totalmente controlada fazer os seguintes artigos (que escolhi propositadamente em inglês)?

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