quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Do meu ponto de vista...

A dupla hipocrisia do Ocidente

A Rússia faz os possíveis para deter uma grande guerra, mas prepara os seus cidadãos para isso. O Ocidente almeja iniciar uma grande guerra, mas vai dando cantos de sereia aos seus cidadãos.

Sejamos claros. A Rússia pode ter desestabilizado a Ucrânia, mas fê-lo com mestria. Ninguém com dois dedos de testa acha que o Poroshenko é tão pró-ocidental quanto aparenta. Nenhuma besta idiota vai dizer aos que exigem poder falar russo no território como segunda língua oficial que falarão todos ucranianos, quer queiram ou não. O Poroshenko disse-o. Quem pode condenar aqueles que apenas querem defender o direito de aprender e de interagir na língua dos seus pais, aprendida numa região secularmente russófona?

A Rússia controla os dois lados da Ucrânia através dos seus agentes de influência, no caso de Kiev, e dos seus oficiais, no caso de Donietsk. Infelizmente, os que se seguem na liderança dos ditos rebeldes não estão à altura de Igor Strelkov, um homem de honra e de valor. E, se pudesse, convidá-lo-ia para uma entrevista.

O Ocidente está à espera do primeiro tiro, em pulgas para descarregar as armas. E, como qualquer socialista, é atabalhoado e reactivo. Somos, é preciso dizê-lo, decadentes. Mesmo uma leitura rápida da entrevista do Ievgueni Primakov (ex-chefe da diplomacia russa) à Russiskaia Gazeta de 8 de Agosto (aqui, traduzida em inglês) mostrará o quão somos burros em acreditar que a Rússia, enquanto animal acossado, não reagirá.

Uma aventura impossível

Míssil Topol-M

Consideremos os seguintes pontos:

  • A Rússia controla 65% das ogivas nucleares do Mundo.
  • A Rússia controla mais de 80% dos mísseis balísticos intercontinentais mundiais.
  • Os russos são ciosos da sua liberdade e da sua soberania. Napoleão, recebido primeiro como um herói libertador em Moscovo, em pouco tempo se apercebeu disso.
  • Os Estados Unidos têm neste momento uma política de absorver um primeiro impacte nuclear e só depois retaliar. Retaliar com quê?
  • Os Estados Unidos têm uma frota de mísseis intercontinentais ultrapassados, que pouco passam os 400, e tem destruído em treinos e testes cerca de 50 por ano. A Rússia tem novos mísseis, e anda a construí-los, juntando-se à sua frota de Topol (SS-25), Topol M e outros, pelo menos ao ritmo de 3 por mês.
  • Na Rússia há unidades de treino patrióticos, mobilizadas por cidadãos ex-militares, que treinam crianças, jovem e adultos em defesa pessoal, sobrevivência e guerrilha.
  • A Rússia tem agentes de influência em todos os órgãos ocidentais, incluindo a União Europeia (preparem-se para um fio de escândalos sem fim nas cúpulas da União).
  • A opinião pública russa está ciente de que haverá uma guerra. Não a quer, mas não a teme. A opinião ocidental parece confiar nas promessas vãs dos mesmos políticos que os enterraram em dívida e em estagnação.
  • A Rússia andou a construir abrigos nos Urais. Já declarou que os túneis metro de Moscovo poderão albergar pelo menos quinhentas mil pessoas.

Quem é asno o suficiente para se meter com os russos?

Ter um inimigo é melhor que ter um irmão?

Porque não convidar já os russos para integrar a União Europeia e a NATO, primeiro como observadores e daqui a três anos como membros de pleno direito? Assim, a Ucrânia poderia funcionar como ponte em vez de muro entre as relações com a Rússia. Por mim, a Rússia deveria fazer parte da União Europeia. Não há verdadeira Europa sem a Rússia. Um russo é mais europeu que muitos dos nossos imigrantes africanos ou asiáticos. Ora, se permitimos e muito bem que os nossos imigrantes sejam acolhidos na nossa casa, que diremos nós dos russos, ucranianos e georgianos?

Se estivermos a viver todos sob a mesma casa, que sentido tem a inclinação da Ucrânia ou da Geórgia?

A fronteira da Europa está na Ilha do Ontem, no Estreito de Bering. A Rússia faz parte da Europa e está neste momento mais próxima do espírito que fez a Europa grande do que a decadente União Europeia. No mínimo, a entrada da Rússia na União iria confrontar a União com a sua própria decadência. E é isso que o diretório da União não quer. A adesão da Rússia iria colocar em mãos comuns os recursos comuns dos europeus: inteligência, competência e recursos naturais. Passaríamos de uma assentada a ser mais de oitocentos milhões de cidadãos, e com quase um terço do PIB mundial.

Perdem os cidadãos da União.